
O apagão histórico que paralisou a Península Ibérica em 28 de abril continua a levantar dúvidas enquanto se aguarda um relatório oficial. A narrativa que apontava a baixa inércia do sistema de energias renováveis como a culpada pelo colapso começou a se desfazer. Dados sugerem uma combinação de falhas mais complexas, em que a inércia, embora tenha desempenhado um papel significativo em sua fase final, não parece ser o gatilho para o blecaute.
O amplo uso de fontes de energia renováveis, como a solar fotovoltaica ou a eólica, que se conectam à rede por meio de eletrônica de potência, não fornecem essa inércia de forma inerente, algo que foi identificado desde o início como a raiz do problema.
No entanto, a terceira vice-presidente da Espanha, Sara Aagesen, declarou no Senado que, nos momentos anteriores ao apagão, o sistema elétrico peninsular tinha um nível de inércia “de acordo com as recomendações”, segundo os dados que a Red Eléctrica, empresa responsável pela gestão do sistema elétrico na Espanha, compartilhou com o Governo. Em declarações divulgadas pela Europa Press, Aagesen especificou que esse nível era de 2,3 segundos, superando a meta de dois segundos estabelecida pela rede de operadores europeus Entso-E.
Joan Groizard, Secretário de Estado de Energia, reforçou essa ideia ao apontar que “muitos sistemas europeus frequentemente operam com inércias inferiores aos que o sistema elétrico peninsular tinha nos momentos anteriores ao apagão”. Essas declarações oficiais esvaziam parcialmente a teoria de que uma falta crítica de inércia foi a causa principal do incidente.
Uma sequência de eventos “anômalos”
As investigações apontam para uma série de distúrbios que antecederam o blecaute. Tanto Aagesen quanto Groizard falam da detecção de oscilações no sistema elétrico europeu horas antes da falha. Uma primeira oscilação “anômala” de 0,6 Hz foi registrada por volta das 12h03, cuja origem, detectada na Espanha, França e até mesmo na Alemanha, “ainda é desconhecida”, de acordo com o ministro. Uma segunda oscilação, mais “normal”, de 0,2 Hz, foi sentida por volta das 12h19, até mesmo em locais distantes como a Letônia, disse Groizard.
Groizard também acusa os picos de tensão como a principal causa do apagão, esclarecendo que “o principal fator desencadeante está associado à sobretensão”. Mas o governo não foi o primeiro a desviar o foco da inércia. Luis Badesa, professor da Universidade Politécnica de Madrid, apontou em uma análise anterior que “duas falhas quase ao mesmo tempo são muito improváveis e apontam para um evento comum”, levantando como suspeitas as “sobretensões em linhas de 400 kV no sudoeste, talvez ligadas a oscilações anteriores”.
A falta de inércia “agravou o problema final porque desencadeou as taxas de variação da frequência em sistemas elétricos, mas a origem estava em várias interrupções anteriores quase simultâneas”, explicou Badesa. Em outras palavras, “a baixa inércia renovável não causou a falha inicial, mas acelerou o colapso”.
As informações disponíveis sugerem que o apagão de 28 de abril não foi uma consequência direta da baixa inércia das energias renováveis, mas o resultado de uma cadeia complexa de oscilações anômalas na rede europeia, seguida de perdas de geração múltiplas e quase simultâneas, possivelmente ligadas a sobretensões.
Para as conclusões definitivas, será necessário aguardar o relatório oficial, que o governo espera ter “em menos de três meses”.
Matéria traduzida e adaptada por Allana Aristides
Inscreva-se no canal do IGN Brasil no YouTube e visite as nossas páginas no Facebook, Twitter, Instagram e Twitch!



